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"TUDO QUE PRECISAMOS É DE MOTIVAÇÃO"

por terça-feira, dezembro 27, 2016

"Após algum tempo lendo novos livros e conversando com as pessoas que acabara conhecendo nos últimos dias, você se descobriu mais à vontade para retomar as tarefas. Organizou sua mesa e suas ideias, tomou um gole do líquido roxo que preenchia seu copo e preparou-se para escrever. Ao olhar para o outro canto do local, percebeu a presença de um item que não havia notado antes: uma vitrola. Com curiosidade, você se levantou e foi até o objeto, encontrando uma grande variedade de discos dispostos ao lado dele. Você passou os dedos por alguns exemplares, escolhendo o último disco da pilha e colocando-o sob a agulha do objeto. O som de saxofones invadiram a sala, deixando o ambiente mais leve e dando a impressão de que os livros se balançavam ao som da música. Você voltou a se sentar, pegou a pena, mergulhou-a na tinta e começou a escrever.

Vez ou outra, você parava de colocar os fatos no papel para correr o olhar sobre o que já havia escrito, procurando por possíveis erros ortográficos ou por falhas na conclusão da história. Sentiu-se feliz ao descobrir que havia poucos erros até ali.

Você então notou que não estava sozinho. Olhou para sua direita e encontrou a garota que havia lhe convidado a sair da torre, dias atrás. Ela sorriu para você, inclinando a cabeça rumo à saída do local, convidando para tomar um ar fresco. Você fechou o livro e a seguiu, sentindo-se completo - talvez pela primeira vez na vida." 

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Você já se sentiu motivado a fazer algo? Já sentiu aquela inquietação dentro de si, aquela necessidade de satisfazer seu desejo?

Como você lida com a sua motivação?

Você provavelmente já esteve estagnado em algum momento ou situação da sua vida. Estava diante de um plano, projeto ou ação que, para você, era genial, mas não sabia para onde ir ou como começar.

Da mesma forma, você está enérgico, quer desenvolver algo, pretende revolucionar determinada área - ou nem tanto, apenas quer produzir algum conteúdo - mas não consegue ou não sabe como fazer essa energia que está dentro de você.

Em sua última postagem, Yuri citou a existência de três pilares no processo de criação e falou sobre um deles, a Avidez. Hoje, em minha primeira postagem, vou falar sobre outro: a Motivação.
Vamos começar conhecendo a palavra:

Motivação: surgiu do Latim movere - mover, em português.
Mover: pôr em movimento, agitar, mexer.

Faz um bom tempo que eu comecei a usar a frase all we need is motivation (tudo que precisamos é motivação) em várias situações da minha vida. É um mantra para mim. Quando você está motivado a fazer algo, aquela força que te move não irá cessar enquanto você não alcançar seu objetivo.

Eu sempre fui uma pessoa sonhadora e que gosta de fantasiar sobre várias coisas. Desde muito jovem, eu acompanhava vários filmes e desenhos animados, a maioria deles contavam histórias que aconteciam em ambientes místicos ou em lugares onde as pessoas possuíam super-poderes. O contato com esse tipo de conteúdo influenciou para que eu começasse a criar meu próprio universo.

Foi quando comecei a rascunhar sobre esse novo universo que eu percebi que grandes coisas poderiam ser feitas ali. Claro que havia a necessidade de um planejamento mais concreto e efetivo, mas aquilo, para mim, já era um avanço enorme: eu estava motivado a criar algo.



A motivação não é algo que você encontra em todo o momento e a única pessoa que pode alcançá-la é você. Muitas das vezes você precisa se fixar em algo que te dê um apoio para chegar até o ponto que você deseja. Ouvir uma música que te causa arrepios ou ler a biografia de uma pessoa que te inspira pode fazer a diferença.

A ausência de motivação, por outro lado, é algo comum. Para ser sincero, antes de concluir esta postagem, eu estava totalmente desmotivado a escrever. Em uma conversa com o Yuri, ele me lembrou de um fato: é importante saber POR QUE e PARA QUE você escreve, e isso está totalmente ligado com o assunto deste texto. Quando você sabe o que te motiva a fazer determinada coisa, o caminho até a conclusão dela se torna bem mais nítido.

Se você quer escrever e consegue saber o por que e o para que você escreve, você conseguirá chegar até onde deseja. Se, somado a isso, você conseguir identificar as coisas e/ou pessoas que te inspiram, metade do caminho será alcançado. Use desses artefatos para buscar mais conhecimento através da leitura, expandindo seu vocabulário e pesquise! Conhecimento nunca é demais.

O importante, no fim das contas, é que você pratique. Coloque tudo no papel, no bloco de notas ou em qualquer que seja o editor de textos. Mova-se, anote, gere conteúdo, peça opiniões, aceite críticas e tente sempre melhorar. Você provavelmente vai se sentir desmotivado muitas e muitas vezes durante esse processo e é importante que você reserve um tempo para se motivar novamente.
 
Que a motivação esteja com você!

NÃO ESCREVA

por sexta-feira, agosto 12, 2016
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"As imediações da torre estavam mais movimentadas naquele dia. Alguns aprendizes aproveitavam a tarde quente do lado de fora, conversando despreocupadamente na beira do lago. Outros praticavam um esporte que envolvia vassouras e o lançamento de bolas. Uma dupla dormia tranquilamente embaixo da sombra de um enorme carvalho. Cada um aproveitava do seu jeito.

Você, por outro lado, estava dentro da Torre e observava a movimentação da janela. Você tinha muito para escrever e trabalhar. Sua cabeça estava cheia de ideias. Para falar a verdade, nunca em tanto tempo você possuía tanto para escrever. Sobre as mesas da sala circular, dezenas das suas anotações se espalhavam, entre livros abertos e garrafas de líquido roxo pela metade. Seu grimório estava preenchido com várias técnicas e ideias. Tudo parecia ótimo, mas não estava.

Apesar de tantas ideias na cabeça, registradas em vários esquemas e fluxogramas, algo estava errado. Era meio da manhã e você tinha tudo já preparado para começar uma história: tinha uma boa personagem principal, um enredo interessante e o primeiro gatilho da história concebido. Não havia nenhuma ponta solta ou algo crítico que precisasse lidar. Na verdade, não havia algo errado, mas ao mesmo tempo, não parecia certo.

O livro a sua frente estava aberto, pronto para ser escrito, mas você não conseguira passar do título. Por alguma razão, você não tinha vontade de escrever. Não se podia culpar a falta de inspiração, se algo não faltava, esse algo eram ideias! Também não era bem ausência de motivo: você sabia por que escrever, a história fazia sentido e você queria conta-la. Apesar disso, por algum motivo obscuro, você não tinha ambição de escrevê-la naquele momento - e sinceramente, não tivera o dia todo, desde que concebera todos os detalhes de sua estrutura.

Você se sentou na cadeira - pela vigésima vez naquele dia - e encarou o livro em branco a sua frente. Com a pena em mãos, você começou a escrever sentenças no papel. Na terceira linha, um suspiro longo e desanimado brotou dos seus lábios. Aquilo não estava dando certo. Não estava fluindo. Você rasgou mais uma das folhas e jogou junto a pilha que se acumulava num dos cantos da sala circular.

Sem vontade de prosseguir nas tentativas, você encarou o teto. Uma brisa suave entrou pela janela. As vozes das pessoas do lado de fora da torre eram altas e carregadas de animação - se ao menos você pudesse se concentrar...

Um objeto entrou fazendo estardalhaço pela janela da torre, pousando sobre a pilha de papeis que você acumulava. Com surpresa, você se levantou de um salto, em busca daquilo. O couro marrom se destacava entre os papéis.

- Hey, desculpe por isso. O arremesso foi mais forte que eu esperava. - Disse uma aprendiz do outro lado da janela, ostentando um enorme sorriso. Você podia ver apenas sua cabeça, e supôs que elaestivesse montado numa vassoura. - Pode nos devolver a bola?

- Sim, claro. Sem problemas. - Você disse, encarando a bola com desânimo. - Aqui está.

- Obrigado. - Ela disse, estendendo o braço pela janela e aceitando o objeto de volta.

Você se virou para retornar aos trabalhos, quando a voz dela soou novamente, indicando que ela não havia indo embora.

- Você talvez devesse dar uma saída. Está um dia maravilhoso lá fora. - Antes que você pudesse protestar, ele continuou. - Algumas horas de distração não lhe fará mal e, pelo visto, não está sendo muito produtivo de qualquer forma. - Ela disse, esboçando um sorriso enquanto apontava para os papéis no chão. Seu desânimo não lhe dava realmente forças para responder - Bom, não quero lhe atrapalhar. Obrigado mais uma vez e boa sorte.

Você odiava admitir, mas ela tinha razão. Você se aproximou da janela - talvez um tempinho não fizesse mal. As pessoas pareciam realmente se divertir lá fora, e ali dentro não fora produtivo o dia todo. Ainda com incerteza, você se dirigiu para a saída da torre - não planejava demorar muito. Antes de sair, você deu uma olhada em um ótimo livro que você não tivera a oportunidade de ler nas últimas semanas. Instintivamente, você pegou o livro desceu as escadas. Aquilo afinal parecia uma boa ideia."
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Então você quer ser um escritor? Tem dias que parece impossível não é? É, sei como é isso. Idéias e razões para escrever nem sempre são o suficiente para que você consiga, de fato, materializar alguma coisa.

Nesse momento, eu tenho seis contos com estrutura e enredo definidos (dois deles minisséries), tenho bons motivos para escrever, mas simplesmente não consigo. Fico parado, diante da tela do computador, sem vontade de escrever.

Parte disso é culpa minha. Alguns dias atrás, li uma carta do genial George Martin para o seu editor. A carta era nada mais nada menos que o argumento de toda a obra de Crônicas de Gelo e Fogo, com enfoque especial de A Guerra dos Tronos. Talvez você não saiba o que é o argumento de um texto, - esse assunto ainda vai aparecer aqui! - mas ele é basicamente o resumo da sua obra, com tudo que acontece, inclusive o fim - isso mesmo - e serve para convencer as editoras a publicarem o seu livro, sem que precisem lê-lo completamente. Mas o ponto que me chamou atenção na carta foi o seguinte trecho:

Como você sabe, eu não resumo meus romances. Eu penso que se eu souber exatamente o que vai acontecer no meu livro, eu perco todo o interesse em escrevê-lo. Eu com certeza, no entanto, tenho boa noção da estrutura geral da história que estou contando, e o possível destino de muitos de meus principais personagens na trama. - George R. R. Martin

No meu caso, em alguns dos projetos, eu fiz exatamente isso, e por essa razão talvez tenha perdido a vontade de escrever. É possível que no seu caso a avidez tenha sumido por outras razões, - ou talvez ela nem tenha sumido ainda - mas vamos falar dela e o quanto ela é importante para escrita e, quem sabe, como podemos sempre mantê-la viva.

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Avidez

Pode-se dizer que, na criação de qualquer coisa que seja, existem três pilares principais: Inspiração, Motivação e Avidez. Isso significa que, no processo criativo, o conjunto desses fatores faz com que você esteja apto a criar, e criar com qualidade.

A inspiração pode ser definida como o que escrever. É aquela ideia que vem naquele momento oportuno e te guia para o que fazer.

A motivação é o por que escrever. É aquela certeza que você tem de que deve contar aquela história. Aquela sensação de que a história merece ser contada e que você é capaz de contá-la.

A avidez é a vontade de escrever. A ambição de escrever. É o quanto você está ávido. É aquele impulso que te move, que te faz ter vontade de escrever no meio da noite, no meio de uma festa, enquanto faz uma caminhada, enquanto assiste um filme. Aquele instinto indescritível que pulsa na sua cabeça dizendo ESCREVA.

Sem avidez, a história parece forçada. Mesmo que você tenha ótimas ideias e uma boa razão e intenção para escrever, se não houver vontade, a história não vai se propagar. A escrita não vai ser fluida. As palavras vão parecer mal encaixadas e isso vai se traduzir na leitura. Sabe aquele texto que não te prende? Que não te traz interesse? Aquele texto que você se esforça pra ler por que parece que houve um enorme esforço para ser escrito? Bom, eu tenho certeza que você não quer isso quando as pessoas lerem seus textos não é?

A melhor palavra para avidez talvez seja paixão, mas não importa como você a chama, sua relevância é a mesma.

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A perda da avidez

Enquanto o vilão da inspiração é o bloqueio criativo, e o da motivação é o desânimo, o da avidez é o desinteresse. A falta de paixão pelo que se está fazendo pode tornar aquilo impossível de fazer. I

Uma vez eu li o relato de um escritor que perdeu seus membros na guerra comparar a perda da avidez com o primeiro ano convivendo com sua nova realidade:

Eu acordava, pronto pra levar o dia, apenas para ver aquela cadeira de rodas e perceber que eu não tinha pernas. Perder minha paixão por escrever as coisas se parece muito com aquilo.

Uma vez que você perceba que está sem sua avidez, nada vai te impedir de ter aquela sensação de desolação.

Não se sinta mal, isso é algo que pode acontecer com você pelo menos uma vez, e até de tempos em tempos. Existem várias razões para isso e todas elas vem como um sinal, que pode ser reconhecido antes que a avidez suma completamente.

Sinais

Scott Kuttner, um escritor freelancer americano com 36 anos de experiência, fala de alguns desses sinais de que você está perdendo a avidez por escrever - e como reverter a situação. Abaixo eles estão apresentados, em conjunto com outros sinais que identifiquei:

  • Preguiça de pesquisar: Para um verdadeiro escritor, a jornada de pesquisa é tão - ou até mesmo mais - interessante quanto realmente escrever. Cada etapa da pesquisa é familiar, indolor e nos deixa mais próximos de nossos objetivos. Se essa etapa se tornou dolorosa ou lhe dá preguiça, então há algo errado;
  • Trabalhoso demais: Escrever dá trabalho, isso é verdade. Mas você enxerga isso como um sacrifício ou esse tempo como perdido? Se você não tem mais prazer em escrever e contar histórias, então esse é um sinal que você está perdendo a paixão;
  • Dificuldade em aceitar críticas / mudanças: Um editor próprio, - alguém que você confia para ler e criticar seus trabalhos ou sugerir mudanças - sempre vai almejar o melhor para o seu trabalho. Se você chegou em um ponto que não consegue suportar críticas e fica nervoso com elas, talvez isso signifique que você não está preparado para trabalhar naquilo ou não quer melhorar seu processo. Quando se ama escrever, aprender e melhorar seu trabalho faz parte da escrita;
  • Conflitos com metas: É interessante escrever de maneira desprendida e sem preocupações, mas se você frequentemente estipula metas de datas e prazos - ou recebe essas metas para o caso de um escritor freelancer - e não consegue alcançá-las e tem dificuldades para isso, então é possível que a escrita tenha se tornado um fardo;
  • Distração: Se você passa mais tempo no seu email, em alguma rede social, navegando na internet, ou fazendo qualquer outra coisa para evitar escrever, e tem dificuldades para se concentrar no processo, então há algo errado. Esse talvez seja o ponto mais crítico de toda a jornada para longe da avidez. Se você alcançou esse ponto, é hora de recuperar o controle da sua paixão.

Aquilo que você está escrevendo deve te alimentar. Deve ser o combustível para queimar o fogo das suas ideias. Escrever deve fazer você ficar incontrolavelmente empolgado. Se há muito tempo isso não acontece e você reconhece algum desses sinais, é possível que você esteja próximo de alcançar o ponto em que você vai perder a avidez por escrever, e trilhar um difícil caminho.

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Mantendo e Recuperando a Avidez

Enquanto o vilão da inspiração é o bloqueio criativo, e o da motivação o desânimo, o da avidez é o desinteresse. A falta de paixão pelo que se está fazendo, pode tornar aquilo impossível de fazer e é algo que pode - e provavelmente vai - acontecer com você de tempos em tempos. Apesar disso, existem maneiras de se contornar essa situação.

A paixão pela escrita é como uma chama, e o melhor é não deixar que ela se apague, mas se acontecer, nada impede que você acenda-a novamente.

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Mantendo a avidez

A primeira recomendação para quem quer evitar que a paixão pela escrita suma, é justamente escrever nos momentos de picos de avidez. Às vezes eu estou no meio de um filme e sinto uma vontade imensa de escrever algo. Um desejo absolutamente intenso de produzir. Nessas horas o que eu tento fazer é escrever tão logo quanto possível para aproveitar aquele ímpeto. Quando você aproveita seus ápices de paixão, você retroalimenta essa vontade pois ela é mantida pelo prazer. Seu cérebro tem o hábito de te dar paixão a fazer apenas as coisas que lhe dão prazer, e te desanimar a fazer àquelas que lhe parecem dolorosas. Prazer assimila prazer e estimula prazer, lembre-se disso. Perder o timing da avidez pode lhe custar o próximo ciclo de avidez.

Volta e meia, quando eu escrevo demais, me sinto cansado, improdutivo e pressionado. Acontece muito quando o que eu escrevi demandou muito das minhas habilidades criativas e cognitivas. Quando chego nesse ponto, eu percebo que estou com a fadiga de escritor. Esse problema pode agravar, e muito, o problema da perda de avidez por escrever e é por isso que, quando percebo que estou simplesmente sem energias para escrever, passo a fazer outras coisas para distrair e recarregar as baterias. Nessas horas eu assisto a um filme ou série, jogo alguma coisa ou simplesmente passo um tempo com quem importa pra mim. 

Não se force e escrever quando estiver sem vontade. Essa situação apenas fará com que seu cérebro crie um bloqueio para aquela tarefa, já que ela não é prazerosa e ele assimila aquilo como uma obrigação ruim. É natural que alguns dias não estejamos no melhor humor para trabalhar e é importante não brigar com nossa principal ferramenta de trabalho - o cérebro - nessas horas.

Desligar um pouco da escrita às vezes é o que você precisa para conectar-se de volta. Às vezes você sente que não pode tirar o dia de folga, mas se você não o fizer, o prejuízo pode ser muito maior e seu cérebro pode simplesmente desligar. Se você já tem uma rotina de escrita e quer segui-la, ótimo, mas coloque na rotina dias de descanso e obrigue-se a não escrever nesses dias para não se sobrecarregar.

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Recuperando a avidez

Uma das coisas que eu faço para recuperar a avidez é revisitar o meu trabalho. Muito escritores tem o hábito de escrever muito, mas não de ler o que escreveram. E quando eu falo de ler, não falo apenas do produto final, - os capítulos ou textos que são entregues para o leitor - mas também todos os rascunhos, esquemas, fluxogramas, desenhos e anotações que acompanharam o processo criativo. Trilhar o mesmo caminho do seu processo inicial de criação ajuda o cérebro a reconhecer um universo familiar e acolhedor, o que pode estimular o prazer de escrever novamente. Às vezes eu visito outros projetos, diferentes daqueles que estou trabalhando - muitas vezes até mesmo finalizados - porque eu sei que eles são minha zona de conforto e mostram o que eu já alcancei.

Vai parecer repetitivo, mas outra coisa que faço para ajudar a recuperar minha paixão por escrever é ler. Dessa vez, no entanto, não falo das coisas que escrevi, mas de outros autores. É fácil se lembrar de como é prazeroso escrever quando você lê algo bem escrito e que te proporciona deleite em ler. Lembre-se daqueles livros que estão na sua estante há anos, esperando para serem lidos. Pegue aquele livro de cabeceira que você parou tantas vezes de ler porque estava sem tempo. Redescubra o prazer pela literatura imergindo no universo dos grandes autores que fizeram você querer se tornar um escritor em primeiro lugar, mais uma vez.

Sabe esses autores que eu citei aí em cima? Esses que te levaram a escrever? Você já parou para pesquisar sobre eles? Não? Então sugiro que faça! Às vezes, quando parece que eu nunca mais vou ter vontade de escrever novamente, procuro por algum documentário, filme ou mesmo um texto que conte sobre a história desses nomes que me inspiraram. Revitaliza a minha paixão por escrever descobrir como essas pessoas criaram suas obras, seus processos criativos e sua luta para publicarem. Fazer isso é tão potente que às vezes impulsiona, além da avidez, a motivação e a inspiração pra escrever! É um recurso que recomendo bastante.

Grande parte dos autores gosta de trabalhar em segredo, e não há problema nisso - aliás tem muitas vantagens. Apesar disso, às vezes é muito bom conversar com alguém que você confia sobre alguma parte da trama da sua história ou sobre um personagem interessante que você criou. Eu amo falar das coisas implícitas que coloquei nos meus projetos. Por exemplo, gosto de contar de onde tirei a referência para determinado personagem - quais foram as suas influências - ou mesmo razão pela qual ele possui o nome que lhe foi dado - se tem alguma lógica ou significado. Compartilhar com alguém que verdadeiramente se interessa pela magia do seu trabalho pode te ajudar a resgatar essa magia, enquanto você fala daquilo que dedicou-se a criar. Descrever os aspectos que você gosta na sua obra ativa, no subconsciente, vários pontos de interconexão entre ideias e recupera o prazer que você teve ao cria-los. Quando começo a falar sobre as pesquisas que fiz para determinar as características de um local, isso me deixa animado e me lembra o quanto o processo criativo foi - e pode - ser prazeroso.

Às vezes você se cansou de escrever sempre a mesma coisa - ou de escrever da mesma maneira - e isso tirou seu prazer na escrita. Se isso aconteceu, a solução pode ser bem simples: conheça algo novo! Às vezes eu não estou com muita vontade de escrever, mas procuro sobre alguma técnica que eu não conheço - ou só ouvi falar - para aprender. Quando vejo que é interessante, isso imediatamente me dá vontade de testar, nem que seja um pouquinho, nos meus projetos. Por exemplo, se você escreve apenas em terceira pessoa, tente escrever em primeira. Se você escreve apenas romance, tente escrever mistério! É muito difícil fazer isso do nada? Que tal pesquisar sobre material novo? Existem milhares de ferramentas, formas de planejar, gêneros, referências, estruturas narrativas, técnicas de escrita e estilos para serem descobertos. Até mesmo estudos sobre aspectos de uma obra que você goste podem servir e te mostrar o quão interessante um novo processo criativo, diferente do seu, pode ser. Abrace o novo!

Bom, essas são algumas coisas que você pode fazer e que geralmente funcionam pra mim. Certamente existem várias outras, mas espero que alguma delas te ajude. E se você perdeu completamente avidez ou paixão por escrever e está aqui, em desespero, não entre em pânico! Você pode e vai recuperá-la. Às vezes você só precisa de tempo. 

É difícil começar, mas é fácil uma vez que você tenha realmente começado.

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Não escreva

Para finalizar, deixo a reflexão de Bukowski nesse maravilhoso vídeo. 

Não escreva. Você concorda, colega aprendiz?

O DESPERTAR

por terça-feira, agosto 02, 2016


"Você encarava distraidamente as paredes de pedra da sala circular. Uma brisa morna soprava pela janela da torre, à medida que a luz alaranjada do pôr do sol se projetava sobre as mesas espalhadas no recinto. Seu grimório encontrava-se aberto ao lado de um pergaminho novo, - dava até para sentir seu cheiro - mas ambos estavam em branco. Aquele havia sido um ótimo dia para escrever, mas nenhuma ideia havia aparecido.

Já era a quarta semana seguida que você não tinha nenhuma ideia. No começo você passara dias inteiros com a pena nas mãos, com frustração, sem saber o que fazer. Em alguns dos dias, você jogara fora um punhado de rascunhos, rabiscados com ideias inacabadas e - aos seus olhos - pobres, que levaram a constantes acessos de raiva. Nos últimos dias, no entanto, você havia entrado num estado de aceitação e passara a maior parte do tempo olhando pela janela, alimentando os pássaros mensageiros, ou vagando sem rumo pelos infinitos andares inferiores da torre, a procura de salas e locais desconhecidos. - Você simplesmente não era mais capaz de escrever. Não havia o que fazer.

- É uma bela tarde. - Uma voz suave soou atrás de você, surpreendendo-lhe. Há muito que você não via aquela figura encapuzada - Espero não ter lhe assustado.

- Está tudo bem, não me assustou. É mesmo uma bela tarde - Você disse com desânimo.

- Sinto tristeza em tua voz. O que houve? - Ele disse enquanto andava pela sala, analisando as mesas espalhadas pelo recinto. Você percebeu, com vergonha, quando os olhos dele pousaram no grimório e o pergaminho abertos na mesa. - Deixe-me adivinhar, faltam ideias?

Você assentiu com a cabeça enquanto ele se dirigia para perto da janela, ao seu lado. Ele revirava os bolsos em busca de algo.

- Acho que não nasci pra isso. Não consigo escrever. Não sou criativo... - Você resmungou. A figura encapuzada sorriu.

O aprendiz encapuzado ergueu o braço direito que agora segurava um pergaminho velho, antes guardado no bolso das vestes. Com um movimento com a mão, ele fez o pergaminho flutuar à meia altura do chão, em seguida posicionando as duas mãos sobre ele. A marca do grimorium no pulso dele, bem como os dez dedos, se iluminaram de roxo enquanto o pergaminho se dissolveu no ar. Ele se aproximou de você, que observava a situaçao com um misto de desconfiança e curiosidade.

- Dez travas. - Ele disse ao posicionar as mãos em torno da sua cabeça. Dez fachos de luz se projetavam dos dedos na direçao da sua testa. Você não estava entendendo nada. - Sua mente está com dez travas. Vamos precisar removê-las se você quiser continuar. Posso sentir algo respirando devagar aí dentro na sua cabeça. Algo sonolento. Algo que você precisa despertar. Podemos?

Você não sabia o que responder, mas assentiu. Qualquer coisa era melhor que nada, mesmo que você não fizesse ideia do que ele estava falando.

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OITO. Oito anos. Esse foi o tempo que passei sem ter uma ideia. Esse foi o tempo que passei sem digitar uma linha criativa sequer. Para ser honesto, uma parte de mim já tinha desistido. Fazia tanto tempo que eu não criava alguma coisa, que eu achava que não podia mais criar. Nunca mais. Achava que eu seria incapaz de escrever qualquer coisa de novo, e que meu sonho de um dia contar minha história, idealizada há tanto tempo atrás, jamais se realizaria. Apesar disso, a paixão por criar ainda existia, e eu me esforçava ao máximo para escrever boas redações dissertativas no meu curso de inglês, já que esse era o único contato que eu tinha com produção de texto. Ócios de se fazer engenharia.

Devo confessar que é desesperador. Você passa uma vida tendo ideias, deixando-as para depois e, quando percebe, elas param de vir. Você sente que é incapaz e não foi feito pra criar e, por isso, acaba desistindo de fazer.

Abraham Maslow, um famoso psicólogo americano, ficou conhecido pela sua Hierarquia de necessidades. Em sua teoria, ele dividia as necessidades humanas em 5 grupos. Na base da pirâmide – Fisiológica – estariam as necessidades básicas como respirar, comer, dormir. Acima – na Segurança – teríamos o nível onde a saúde, a segurança da família e do corpo, por exemplo, estariam agrupadas. No patamar seguinte teríamos as necessidades Sociais, relacionadas a amizade, a família e a intimidade. No penúltimo nível – a Estima – estaria a necessidade de se ter auto-estima, confiança, respeito, e reconhecer seu próprio valor. Por fim, no topo da pirâmide, teríamos o patamar da Auto-Realização – o patamar que queremos abordar aqui. Os níveis mais baixos da pirâmide indicam as necessidades mais básicas e que devem ser preenchidas primeiro, antes das de alto nível. Os mais altos níveis, no entanto, seriam aqueles que levariam a realização pessoal e plenitude.

O nível da Auto-realização engloba as necessidades de encontrar seu potencial e de se desenvolver. É o nível que representa o desejo de alcançar tudo que alguém pode alcançar, para então se tornar aquilo tudo que deseja ser. É nesse grupo de necessidades que encontramos a necessidade criativa, de expressão, de imaginar, de construir. É nesse ponto que quero chegar: No fundo, todo mundo deseja construir alguma coisa.

A questão é que, quando você gosta muito de produzir uma coisa, por mais que outras te mantenham ocupado, essa atividade sempre vai lhe trazer prazer e plenitude. Seja na pintura, no teatro, na dança, na escrita, no desenho, no artesanato, nos esportes, ou mesmo programando, a necessidade de criar, construir e produzir é inerente ao ser humano.

Deixando de lado as explicações teóricas chatas, isso tudo é pra tentar te dizer que: Não é porque você está sem ideias agora que você é incapaz de escrever ou produzir. Provavelmente suas travas mentais – mental locks – estão trancadas há tanto tempo, que você sente que suas ideias morreram. Mas não, uma ideia nunca morre. Elas estão aí, dormentes, esperando que você as retome.

Qual é o parasita mais resiliente? Bactéria? Um vírus? Um parasita intestinal? Uma ideia. Resiliente. Altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia tenha dominado o cérebro, é quase impossível erradicá-la. Uma ideia completamente formada – completamente compreendida… isso se fixa em algum lugar lá dentro.  - A Origem (2010)

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Sendo assim, como fazer essas ideias despertarem? E como é quando elas despertam? Para isso, é preciso falar das travas mentais.

Travas Mentais (Mental Locks)

Falando de travas mentais, uma das principais referências no pensamento criativo atual é Roger von Oech: um escritor, inventor, palestrante e fundador da empresa Creative Think (“Pense Criativo”), uma empresa de consultoria criativa e inovação da Califórnia. Além de possuir Ph.D. em “História das Ideias” pela Universidade de Stanford, von Oech ministrou – e ministra – diversas palestras sobre criatividade, ao lado de grandes mentes como Steve Jobs e Bill Gates. Sua empresa já prestou consultorias até mesmo para a Apple e a Disney.  Seu livro, “A Whack On the Side of the Head” – algo como “Uma pancada na lateral da cabeça” – é uma referência ao tratar da criatividade e ter ideias e, principalmente, ao falar das travas mentais.

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Von Oech identificou 10 travas mentais principais que, quando abertas, podem levar sua mente ao despertar. Essas travas devem ser abertas no seu dia-a-dia para facilitar o pensamento criativo, e podem ser empregadas em qualquer área da vida. Uma vez abertas, elas podem te ajudar em qualquer processo criativo, inclusive o de escrever um livro:

1. A Resposta Certa – Somos ensinados a vida toda que existe uma resposta exata para tudo o que vamos fazer. Em algumas ciências, isso é verdade, mas nas artes e na maioria do resto da vida, o número de respostas pra uma situação é ilimitado e baseado em diversos fatores. A proposta aqui é enxergar a vida não como uma série de problemas que devem ser resolvidos, mas como oportunidades. Pergunte coisas como “e se?” frente a desafios e novas formas de enxergar abrirão, eventualmente, essa trava.

2. Isso não é Lógico – Quando presos nessa trava, a pior consequência é bloquear a intuição. Existem dois tipos de pensamento: o sólido e o flexível. O flexível busca conexões e similaridades nas coisas. O sólido busca diferenças nelas. No processo criativo, ao buscar ideias, primeiro é necessário ventilar as ideias flexíveis e, uma vez que elas apareçam, aplicar o pensamento sólido para verificar sua praticidade – sua lógica. Se desde o início uma ideia for julgada por sua lógica, você impõe uma trava mental nessa ideia e consequentemente nessa área.

3. Seguir as Regras – É difícil ser inovador quando você segue cegamente diretrizes. Isso significa fazer o “advogado do Diabo”, questionando a existência de um padrão ou de uma convenção. Muitas vezes valores mudam, mas os padrões não. Essa trava mental é como uma avenida: se você seguir sempre por ela, e bloquear as saídas externas, nunca vai chegar em um destino diferente. Questione. Pensamento criativo envolve não apenas gerar novas ideias, mas também fugir daquelas que são obsoletas.

4. Ser Prático – Desde sempre escutamos que devemos ser “práticos” e ter os pés no chão. É um hábito perigoso abater ideias instantaneamente, encontrando os problemas nelas. Essa atitude mata a oportunidade de novidade e criatividade emergirem. É necessário resistir ao impulso de ter imediatamente uma perspectiva negativa e escutar as ideias com mente aberta. Quando acontecer de uma ideia ser imediatamente descartada, um bom exercício é tentar ter outra logo em seguida que utilize os aspectos bons da ideia anterior.

5. Evitar ambiguidade – Muitas vezes evitamos a ambiguidade pelos problemas de comunicação que ela pode gerar. Essa é uma ideia importante em situações práticas quando as consequências da má interpretação podem ser sérias. Em outros casos, tire vantagem da ambiguidade. Muita especificidade e detalhamento pode restringir seu fluxo de ideias. Tente ver a mesma ideia por vários ângulos. Pense em algo que pode ser mais de uma coisa de uma só vez.

6. Errar é errado – Cometer erros é parte do processo de aprendizado. Tomar riscos necessita que você exercite seu medo de errar. Às vezes é necessário confrontar o seu medo de errar e se arriscar, para que assim você possa entender as consequências desses erros e ter ideias melhores. Sair da sua zona de conforto e arriscar é a maneira de fazer as ideias grandes e inovadoras chegarem até você.

7. Brincar é Bobagem – Se a necessidade é a mãe da invenção, a brincadeira é o pai. Use-a para fertilizar seu pensamento. Na próxima vez que tiver um problema, brinque com ele. Criatividade requer incubação. Resolver um problema é plantar uma semente. Uma vez plantada, ela precisa de tempo pra crescer e espalhar suas raízes. A melhor forma pra isso é não confrontar e focar o problema, mas brincar entorno dele. As ideias vem de lugares estranhos e inesperados.

8. Essa não é minha Área – Visão Estreita (Tunnel Vision) é a receita para ficar preso e deixar de ter ideias. Se envolver com ideias e pessoas de outras áreas é a melhor forma para trazer ideias inovadoras, de diferentes disciplinas e assim poder ver o mundo de maneira diferente, abrindo essa trava.

9. Não ser tolo – Muitas pessoas colocam suas ideias em um pedestal, presos a ela de forma incontestável. É difícil ser objetivo quando você tem seu ego preso a uma ideia. Não tenha medo de bancar o tolo e inverter suas perspectivas sobre as coisas e aprenda a rir de si mesmo. Não se monitore muito com medo de se sentir tolo, às vezes algumas ideias inesperadas podem vir assim.

10. Eu não sou Criativo – A profecia auto-proclamada é poderosa. Quando você auto-trava sua mente, dizendo que você não é criativo, existe uma grande chance que você não seja. Destravar essa trava mental requer que você tenha fé nas suas ideias e acredite em si mesmo. À partir dai, você poderá usar as ferramentas para abrir as outras travas.

Uma vez que você tenha se livrado de todas essa travas mentais, seu cérebro vai estar pronto para receber ideias. Ainda assim, como fazê-las virem (ou voltarem)? Às vezes você pode não conseguir se livrar de todas as travas de uma só vez, mas sabendo que elas existem, você pode começar a trabalha-las. Seu cérebro é uma ferramenta poderosa e na maioria das vezes subestimada.

É aí que entramos na fase final do processo criativo da escrita, ou pelo menos como funcionou pra mim. Essa fase, eu chamo de "O Despertar".

O Despertar

Após os oito anos sem ter uma ideia e me sentir incapaz de produzir qualquer coisa diferente de um texto argumentativo, eu consegui voltar a ter ideias, ao ponto de hoje ter muitos projetos e, na maioria das vezes, ideias diárias. Mas como?

“Começou muito tempo atrás”.

Eu mesmo não me recordo ao certo o primeiro dia que as ideias começaram a voltar. Talvez não tenha sido exatamente em um dia. O mais provável é que elas tenham voltado a aparecer gradativamente, até pulsarem na frequência de hoje.

O que eu chamo de ponto de ignição pra isso, foi justamente o dia que eu resolvi que eu iria voltar a escrever. Sua mente é responsável pelas ideias, e ela tem que se sentir autorizada (e incentivada) a produzir. Minha estratégia na época foi abrir um documento do Word e escrever toda e qualquer ideia que ainda existisse sobre o livro que eu havia começado 8 anos antes. Anotei as informações sem muita organização ou conexão. Assim, de qualquer jeito mesmo. Essas ideias (nomes e características de alguns personagens e uma ou outra cena) foram meu ponto de foco, minha âncora e foi à partir delas que me apoiei e que tudo aconteceu.

Nos primeiros dias, eu revivia mentalmente essas ideias, aos poucos adicionando ou removendo detalhes, tornando-as mais vivas. Repassava diálogos e cenários. Imaginava vestimentas, o clima e outras coisas menores. As coisas foram ganhando detalhes, complexidade e, eventualmente, proporção.
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Foi assim que, revisitando pensamentos, num ciclo de interseção e expansão progressiva, que as primeiras ideias novas surgiram. De início foram apenas alguns detalhes. Um personagem novo, uma cena nova, um acontecimento, um fato histórico, um evento, até que, em determinado momento, todas as ideias vieram de uma vez, e a história começou a crescer sozinha.

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É importante ressaltar que essas ideias todas são voláteis – ou seja, elas vão sumir se você não anotar, pois elas estão acompanhando o impulso que você conseguiu, e se você colocar um obstáculo em seu caminho, elas vão parar de vir. E como impedir que elas sejam obstruídas? É simples: não deixe o fluxo parar. Não deixe ideias retidas por muito tempo. Registre. Escreva. Grave. Desenhe. Produza. Faça um rascunho. Não deixe sua mente encher na total capacidade, ou ela vai tentar desesperadamente se agarrar a tudo - o que ela não vai conseguir - e ideias vão vazar, transbordando pro vazio, até que o fluxo vai parar mais uma vez, pelo medo de perder mais ideias, como uma forma de proteção contra a frustração.

Quando você der vazão para essas ideias, você vai permitir que seu cérebro encha de novo, e novas ideias virão, num ciclo praticamente infinito. E ai, quando você puder finalmente concretiza-las, você terá seus registros para te guiar, e sua mente vai só deslizar pelas ideias, tornando tudo mais suave e conectado de maneira fluida, permitindo até mesmo que você resolva com facilidade inconsistências e problemas que possam existir. Por fim, esses processos podem permitir que você tenha desfechos e retoques inesperados e brilhantes para suas ideias. E é assim que, por fim, você vai despertar.

Eu já posso sentir o seu despertar chegando. Você pode?

GRIMÓRIO DA VERDADE

por sexta-feira, julho 29, 2016



"A altura da Torre Branca impressionava. As paredes de mármore branco pareciam intocadas pelo tempo, encrustadas de símbolos e runas indecifráveis. No topo de sua estrutura, um imenso cristal roxo pulsava regularmente, emitindo ondas de energia roxa em todas as direções. Cada palpitação lhe provocava um calafrio na espinha. Pequenas janelas se distribuíam sob sua extensão, por onde corujas e corvos entravam e saíam à todo momento, carregando pacotes e encomendas. Uma atmosfera mística envolvia o platô de pedra da construção, no meio daquele vale preservado, rodeado de duas grande cachoeiras de água cristalina. Sem dúvidas, tudo aquilo parecia ancestral - e surpreendente. Hesitação dominou-lhe o corpo ao encarar o grande portão de aço guardado por duas gárgulas de pedra. Você sabia que, se entrasse, não haveria volta. Isso se você pudesse entrar.

Você se aproximou, olhando desconfiadamente para as estátuas impetuosas que protegiam a entrada. Ouvira histórias sobre essas criaturas ganhando vida no passado, afastando aqueles que não eram dignos. Você não sabia se tinha o que era esperado - se merecia entrar - mas prosseguiu mesmo assim. Seus instintos lhe guiavam para que seguisse e assim você o fez.

O portão de aço estava a sua frente. No seu centro, uma pedra branca e transparente cravada era a chave - ou melhor maçaneta - para abri-las. Você aproximou sua mão trêmula de nervosismo do quartzo e,  com insegurança, tocou-lhe com as pontas dos dedos. Um pequeno calor subiu-lhe os membros, acompanhado de um brilho arroxeado que percorreu, para seu espanto, as veias do seu braço, alcançando o peito, o pescoço e, por fim, as têmporas, causando-lhe uma sensação estranha de empolgação, e ainda assim familiar. A porta aprovara-lhe a entrada, girando sobre suas dobradiças metálicas com um estalo metálico. Uma brisa leve e convidativa soprava do ambiente interno da torre, arrastando consigo uma fina névoa branca. 

Sem conter a emoção, você prosseguiu com determinação. Seus pés encontraram os degraus ásperos do primeiro andar da torre enquanto você ainda se recuperava da magnífica visão do interior. As paredes se erguiam circularmente a sua volta, com colunas brancas colossais lapidadas a mão com entalhes de símbolos e runas, sustentando a estrutura. Era praticamente impossível ver o topo dali. Uma escada em caracol serpenteava pelos diferentes andares, delimitados por plataformas flutuantes, que muitas vezes pareciam se mover sozinhas. Naquele pavimento, incontáveis estantes com os mais variados tipos de livros se espalhavam por todos os lados. Aquele lugar era surpreendentemente enorme. Parecia muito maior por dentro que por fora - e talvez realmente fosse por meio de alguma magia. 

Você se sentia flutuar. Estava em um lugar de sonhos. Sua mão ardia levemente, numa sensação calorosa. Nas costas dela uma marca, que você já conhecia, brilhava com intensidade: a forma de um livro com um olho na capa. Na primeira vez que a vira, você não fazia ideia do que significava, mas tão logo ela aparecera, um desses corvos lhe encontrara, enviando uma carta convite com poucas explicações, mas suficiente para entender o seu propósito - e que aquilo era tampouco um convite, mas uma intimação - que no fundo você sempre quisera aceitar.

Caminhando entre as estantes, seus olhos percorriam os títulos dos infindáveis livros. Alguns você conhecia mas não havia lido, outros há muito faziam parte de sua coleção pessoal e muitos outros você desejava do fundo do coração que houvesse lido. Instintivamente, suas mãos se apressaram a colocar alguns deles na sua bolsa - para estudos posteriores. Enquanto andava pelos corredores, seus pensamentos difusos se perdiam entre tantas fontes maravilhosas de leitura, lhe fazendo esquecer completamente do por quê estava ali - encontrar aquele livro.

Sua intuição lhe dizia para prosseguir aos andares superiores, onde as plataformas flutuavam e onde você podia jurar ter visto um ser encapuzado passar voando sobre elas, coletando livros das estantes encrustadas nas paredes - seria possível? A escada em caracol parecia descer para outros andares, e nos andares superiores, parecia atingir alguns pavimentos mais estáticos.

Seus pés lhe guiaram sem que você nem mesmo percebesse. Quando se deu conta, você estava no meio da torre, aos pés da escada, com a bolsa carregada de livros que talvez você nunca fosse ler - mas não importava, eles estavam ali e você podia senti-los. A marca na sua mão pulsava com ainda mais força. Com curiosidade, você desceu alguns poucos degraus para ver o que lhe aguardava no andar de baixo.

Diferente do andar superior, esse era um salão de extensão incalculável, escuro e de teto baixo. Pequenas estruturas circulares, mais uma vez incontáveis - abundância era de fato a característica mais marcante da Torre Branca - se erguiam pelo chão do andar, com pouco mais de um metro de altura. Algo brilhava em seus interiores, e parecia ondular: líquido. Você desceu mais. Os pequenos tanques atiçavam-lhe a curiosidade e você não pôde resistir, apesar de saber que seu compromisso principal não residia ali. 

Ao chegar na piscina mais próxima, você se debruçou sobre sua borda, encarando o líquido. A água translúcida rapidamente se tornou um denso líquido roxo e imagens familiares se formaram: imagens suas. Aquelas eram algumas de suas memórias. Alguns momentos importantes com pessoas que você gostava. Você se assustou, e deu um pulo para trás, correndo para o próximo tanque. Mais uma vez imagens suas estavam ali, de momentos de dificuldade e tristeza. Com espanto, você correu para meia dúzia de outros tanques, constatando que todos eles exibiam diferentes partes das suas recordações e impressões. Era um lugar curioso. A marca ainda pulsava na sua mão.

Quando você se dirigia de volta para a escada em caracol, vislumbrou uma estrutura ao fundo da sala que não havia visto antes: um filete de água descendo do teto, que caía em uma pequena bacia, a meia altura. Prostrado do lado da bacia, havia um copo de pedra lisa. Sua curiosidade, sempre impulsiva, guiou seus passos até lá e fez com que você coletasse o copo - sua vontade era bebericar da água da bacia. Antes que você pudesse concluir sua ação, o líquido translúcido também se tornou roxo e denso, enchendo toda a bacia, que transbordava para alguns orifícios no chão, por onde era conduzido. A vontade de provar do líquido era forte demais, e suas mãos fizeram com que você recolhesse um pouco do fluido com o copo de pedra, que você aproximou da boca.

O gosto era novo, desconhecido. Não era doce nem salgado. Não era amargo nem azedo. Era um pouco de tudo e um pouco de nada. De repente, sua visão se tornou turva e imagens lhe vieram a mente. Imagens de coisas que jamais haviam-lhe acontecido, com pessoas que você jamais vira ou ouvira, mas ao mesmo tempo que você sabia que não eram reais. Imagens criadas por outras mentes e registradas de formas que você sequer conhecia - pareciam de um tipo diferente de tecnologia.

Seu cérebro estava cheio. Ideias pulsavam e gritavam para sair. Sua marca na mão iluminava todo o local e ardia como uma fogueira - parecia pedir socorro. Você sabia o que devia fazer,  e correu. Correu como se sua vida dependesse disso, subindo as escadas, tropeçando nos próprios pés. Seu instinto lhe dizia para subir. Subir muito. Passar as plataformas flutuantes e os encapuzados voadores. E assim você subiu.

A subida foi difícil. Os livros na mochila e as ideias na cabeça pareciam pesar-lhe uma tonelada. Várias e várias vezes você quis desistir - como quis. Você não parecia ter aptidão para aquilo. Você não parecia capaz. Você quase deixou os livros - ou as ideias - pra trás uma porção de vezes, e por isso teve que voltar para buscá-los, mas prosseguiu. Você achava que a escada não tinha fim, que as plataformas eram infinitas e que a torre era eterna, mas não era. Após muito correr, lá estava: a abertura para o andar superior.

Ao alcançar o andar, faltava-lhe fôlego, mas sobrava-lhe empolgação. A sala, para sua decepção, era muito mais simples e diferente das outras. Era simples demais. Estava praticamente vazia, exceto por um pedestal erguido no meio dela, com um objeto apoiado em seu topo,  além de algumas mesas espalhadas em seu entorno. Você se aproximou da estrutura, em tempo de ver que ali pousava um livro grosso de capa antiga, com um olho estampado: o livro. A escada ainda se prolongava pelo andar superior, mas dessa vez ela se escondia sobre o teto da sala do livro. Sua curiosidade lhe dizia para subir, mas algo lhe dizia que lhe faltava preparo. Suas mãos tremiam, suas pernas estavam bambas e seus pulmões pareciam que iam sucumbir a pressão de retomar todo o ar que você havia perdido, mas ainda assim, você decidiu abrir o livro.

Para seu espanto, ele estava completamente em branco. Nem uma página sequer estava preenchida. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem mesmo um ponto. Tudo estava em branco, exceto pelo título, cravado numa das páginas assim como as inscrições na parede estavam esculpidas em pedra: Grimório da Verdade. Só agora você se dera conta que uma pena estava pousava num tinteiro ao lado do livro,  próximo a sua mão boa - será que ela sempre estivera ali mesmo? A marca no braço parecia que ia fazer sua pele derreter. Você não percebeu quando esticou o braço e alcançou a pena. Você não percebeu quando a tinta tornou-se roxa. Você nem mesmo percebeu quando começou a escrever, mas quando se deu conta, o livro estava cheio de ideias e coisas que você aprendera enquanto debruçara-se sobre os livros que colhera no andar debaixo,  espalhados bagunçadamente pelas mesas - quando foi que eles haviam sido colocados ali? Você não se lembrava.

Você não fazia ideia de quanto tempo se passara desde que você começara a registrar suas lições ali antes de finalmente parar de escrever. Seu pulso cansado e seus dedos dormentes pediam por socorro e, mais do que isso, sua mente clamava por descanso. Faltavam-lhe ideias. Faltava-lhe inspiração. Faltava-lhe conhecimento. 

- Você trabalhou muito. - Uma voz suave surgiu de trás de você na sala. Você se assustou (de onde ela havia surgido?). - Vejo que você aprendeu muito até aqui. Sem ajuda. É admirável. Eu mesmo levei muito mais tempo para alcançar esse andar. Muito mais ainda pra escrever tudo isso - disse a figura encapuzada deslizando os dedos pelas páginas que você havia acabado de escrever. 

- Agradeço. Mas eu não sei exatamente o que estou fazendo, ou o que fazer a partir daqui... - Você disse com insegurança.

- Nenhum de nós sabe. Talvez nunca saibamos... - Ele disse pensativo, caminhando com os braços cruzados e apoiados no ar a sua frente. - Mas ainda assim, temos que prosseguir, não é mesmo? Você não quer saber o que lhe aguarda no andar de cima? Nos andares superiores? Você não quer ver o topo da Torre? Você não quer ver o cristal púrpura de perto e, quem sabe, usá-lo? - Você assentiu com a cabeça.  Era tudo que você queria. - Mas no fundo você sabe que não tem o preparo, não é mesmo? 

- Sim, eu acho que sim. - Você concluiu com desânimo.

- Não desanime. Eu não planejo, e muito menos posso, ensinar-lhe nada... Jamais poderei. Não estou apto para isso. Quem sabe talvez eu possa indicar-lhe uma maneira de aprender assim como eu aprendi? Quem sabe talvez eu possa aprender como você aprendeu e possa beber da mesma fonte que você? Quem sabe eu possa desfrutar dos mesmos livros e colher do mesmo conhecimento? Talvez assim possamos um dia subir para os andares superiores... Quem sabe... 

- Quem é você? - Você perguntou com curiosidade. Aquela conversa era reconfortante e você sentia que ainda havia, de certa forma, esperança.

- Eu sou você, ou melhor, alguém como você. - Ele deu um longo suspiro e continuou. - Estou aqui há algum tempo, mas sinto que ainda não estou preparado, e talvez você tenha chegado aqui para me inspirar. Quem sabe? Sou um aprendiz como você e espero um dia dominar a magia mais profunda e mística que existe: a mesma que te guiou até aqui. Agora é hora de ir. Preciso escrever um pouco mais no meu grimório. Nos encontraremos novamente. - Dizendo isso, a figura misteriosa desapareceu no ar, sumindo numa névoa branca. 

Você finalmente se lembrou por que estava ali. Seu desejo de se tornar um mago da criação, das manifestações mais sublimes, lhe impulsionara por toda sua vida. Seu grimório estava prostrado na sua frente. Seus olhos percorreram as mesas ao redor e, com espanto, você descobriu que o aprendiz lhe deixara alguns livros novos. Com animação, você correu entre as mesas, analisando títulos e mais títulos - infindáveis! Existia até mesmo uma garrafa cheia de líquido roxo no canto de uma das mesas - incrível! Quando você decidiu debruçar-se sobre alguns deles, um livro em especial chamou-lhe a atenção, destacando-se dos demais, próximo a garrafa.

Você se apressou para pegá-lo e, com empolgação, analisou-o. A capa roxa era muito bela, mas ao mesmo tempo simples. Um imenso olho branco estampava o centro do livro. Com leveza você o abriu onde a língua branca para marcação de páginas pousava: a primeira folha. O título no centro parecia ter sido escrito há algum tempo no papel amarelo do,  já desgastado. Sua marca na mão emitia um calor aconchegante.

- Grimorium. - Você pronunciou o título em voz baixa, pouco antes de virar a página. Sua visão foi ficando roxa e, quando você percebeu, a torre havia se dissolvido e você se debruçava sobre as páginas do livro velho e gasto. Havia esperança."



Se você leu até aqui, essa história é sobre você e sua vida de escritor. Essa história é sobre suas descobertas, sobre seus anseios e dificuldades para trilhar o seu caminho escrevendo livros. Talvez os livros na sua estante sejam diferentes ou o andar que você parou foi outro. Talvez você tenha hesitado mais pra entrar na torre. Talvez você ainda esteja diante dos portões. Talvez você ainda não tenha escolhido um livro. Talvez você não carregue nenhum livro na bolsa. Uma coisa, no entanto, é certa: o seu grimório já te escolheu e a marca pulsa na sua mão.

Seu grimório é seu maior companheiro, e seu livro de magias, com todos os truques e técnicas que você vai precisar para se tornar um grande mago da escrita. Talvez o Grimorium não seja o seu grimório preferido, ou faça parte das suas escolhas, mas você chegou aqui por alguma razão e talvez, só talvez, exista algo das artes mágicas da escrita que possa te inspirar aqui.

Se você é um escritor com problemas durante o desenvolvimento de um livro ou texto; se você quer escrever mas não sabe nem como começar; se você não tem nem idéia do que fazer; se você tem ideias, mas acha que não pode escrever um livro; se você acha que pode escrever um livro, mas não tem ideias; se você está inseguro do que fazer, mas livros são sua paixão; se você quer só descobrir um pouquinho sobre o mundo da escrita; ou se simplesmente você foi guiado pra cá, então talvez você seja um mago da escrita.

Nós,  os aprendizes que escrevem o Grimorium, Gabriel "Gabreu" Alves e Yuri "Flagrare" Guimarães, desejamos subir para o topo da Torre Branca, lugar dos Magos e Bruxos da escrita. Nós queremos que você suba com a gente, e prepare o seu próprio grimório no caminho.

O Grimorium é um site onde falaremos sobre nossas descobertas, experiências e dificuldades ao escrever, com o objetivo de difundir e compartilhar algo que possa ser de auxílio para escritores que também passam por essas situações. Escritores em desenvolvimento,  assim como nós.  O objetivo também é coletar outras situações que possam ainda não ter acontecido conosco - ou sido abordadas pelo site - para que possamos preencher as páginas do nosso grimório com lições a aprendizados valiosos para escrever e, quem sabe assim, aumentar o nosso grimório, ao passo que você também seja capaz de escrever o seu.

Seja bem-vindo. Esse foi o prólogo do Grimorium. Esteja pronto para os próximos capítulos, e para escrever os seus, do seu próprio Grimório da Verdade.

Um site para escritores,  de escritores. 
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